O Vírus Nipah: Uma Ameaça Zoonótica Recorrente
O vírus Nipah (NiV) é um patógeno zoonótico do gênero Henipavirus, da família Paramyxoviridae. Seu hospedeiro natural são morcegos frugívoros do gênero Pteropus (conhecidos como raposas-voadoras), encontrados em regiões da Ásia, Pacífico Sul e partes da Africa.
O vírus foi identificado pela primeira vez em 1998-1999 durante um surto na Malásia peninsular e em Singapura, afetando principalmente criadores de porcos. O surto resultou em mais de 265 casos humanos na Malásia, com cerca de 105 mortes, e 11 casos em Singapura, com uma fatalidade. Milhões de porcos foram abatidos para conter a transmissão.Desde 2001, surtos quase anuais ocorrem em Bangladesh, com transmissão frequente por consumo de seiva de palmeira de data contaminada por urina ou saliva de morcegos infectados.
Na Índia, casos foram registrados desde 2001 (Siliguri, Bengala Ocidental), com surtos notáveis em Kerala a partir de 2018 (incluindo múltiplos episódios em 2018, 2019, 2021, 2023 e 2024), e em Bengala Ocidental em 2001 e 2007. Em janeiro de 2026, autoridades indianas confirmaram casos no estado de Bengala Ocidental, próximos a Kolkata, envolvendo profissionais de saúde de um hospital privado.
Inicialmente foram reportados dois casos (duas enfermeiras, uma em condição crítica), relatos indicaram até cinco infecções confirmadas, com quase 100 pessoas colocadas em quarentena. Contatos próximos (cerca de 196 pessoas) foram rastreados, testados e deram negativo. O surto foi declarado contido pelas autoridades indianas em 28 de janeiro de 2026. Países vizinhos, como Tailândia, Nepal, Malásia, Singapura, Indonésia e Hong Kong, aumentaram triagens em aeroportos para passageiros vindos da Índia, incluindo verificações de temperatura, questionários sobre sintomas e monitoramento visual.
A transmissão ocorre principalmente de morcegos para humanos via alimentos contaminados (como suco de palma crua ou frutas mordidas), ou por contato direto com animais infectados (porcos, cavalos, cães, gatos). A transmissão pessoa a pessoa acontece por contato próximo com fluidos corporais de pacientes infectados, especialmente em ambientes hospitalares ou familiares, sendo mais comum em surtos em Bangladesh e Índia. O período de incubação varia de 4 a 14 dias (raramente até 45 dias).
Sintomas iniciais incluem febre, dor de cabeça, dor muscular, vômitos, dor de garganta e tosse. Podem evoluir para pneumonia, dificuldade respiratória e encefalite (inflamação cerebral), com convulsões, confusão, coma e falência respiratória. Sobreviventes podem apresentar sequelas neurológicas permanentes, como convulsões recorrentes. A taxa de letalidade varia de 40% a 75%, dependendo do surto, da vigilância e do manejo clínico.
Não existe vacina aprovada nem tratamento antiviral específico; o cuidado é de suporte intensivo. O vírus Nipah é classificado pela OMS como patógeno prioritário devido ao potencial epidêmico, alta letalidade e ausência de contramedidas específicas. Pesquisas em laboratórios de alta contenção (incluindo BSL-4) exploram sistemas de genética reversa para criar vírus recombinantes, mutantes e pseudovírus, visando entender mecanismos de replicação, patogênese e transmissão, além de desenvolver vacinas e antivirais.Vários candidatos a vacinas estão em desenvolvimento, incluindo plataformas de vetores virais recombinantes (como rVSV) e vacinas de subunidades ou baseadas em proteínas. Alguns avançaram para ensaios clínicos de fase I e II, com testes planejados em áreas endêmicas como Bangladesh a partir de 2026, apoiados por organizações como CEPI.
Apesar dos progressos em modelos animais, onde certas vacinas demonstraram proteção, nenhuma foi licenciada para uso humano até o momento. Estudos recentes mapearam a estrutura do polimerase do vírus Nipah, revelando diferenças em relação a outros paramixovírus, o que pode auxiliar no design de antivirais de amplo espectro. Anticorpos monoclonais, como o m102.4, foram testados em casos compassivos e em fase I, mostrando potencial para terapia pós-exposição.
A pesquisa em ganho de função (gain-of-function) com vírus Nipah ou relacionados tem sido realizada em laboratórios de alta segurança para estudar patogênese e transmissão, mas levanta debates sobre riscos de acidentes laboratoriais, especialmente após lições de pandemias anteriores. Surtos recentes, como o de 2026 em Bengala Ocidental, destacam a necessidade de vigilância contínua em morcegos e interfaces animal-humano, com testes em populações de morcegos em zoológicos e áreas afetadas para mapear reservatórios.
Em meio a esses fatos alarmantes, com surtos recorrentes em áreas densamente povoadas, ausência de cura e pesquisas avançadas em laboratórios globais, fica difícil não questionar se esses eventos “naturais” surgem sempre no momento certo para manter a atenção global — e os investimentos — focados em certas regiões e narrativas de saúde.
Sob uma ótica mais crítica, há quem questione se a recorrência de surtos como o do Nipah não está ligada a interesses geopolíticos, econômicos e biotecnológicos mais amplos. Observadores apontam que epidemias emergentes costumam coincidir com ciclos de investimentos em vacinas, contratos bilionários com governos, expansão de laboratórios de alta contenção e fortalecimento de organismos internacionais de vigilância sanitária. Nesse contexto, o medo coletivo funcionaria como catalisador para acelerar aprovações regulatórias, justificar gastos extraordinários e ampliar mecanismos de controle social, sob o argumento da “proteção da saúde pública”.
Além disso, críticos levantam suspeitas sobre a crescente pesquisa em engenharia viral, genética reversa e ganho de função, questionando se todos os riscos são realmente transparentes para a sociedade. A concentração dessas pesquisas em poucos centros globais, frequentemente ligados a interesses militares, farmacêuticos e estratégicos, alimenta a percepção de que certos patógenos podem estar sendo, no mínimo, “explorados” como instrumentos de influência. Para essa visão, surtos recorrentes não seriam apenas eventos naturais, mas peças de um tabuleiro maior, onde crises sanitárias ajudam a moldar narrativas, direcionar recursos e legitimar novas formas de vigilância, dependência tecnológica e centralização de poder.
Fontes:
- World Health Organization (WHO) – Nipah virus infection
- https://www.who.int/health-topics/nipah-virus-infection
- (Página oficial com visão geral, transmissão, sintomas e histórico de surtos.)
- National Centre for Disease Control (NCDC), Índia – CD Alert: Nipah Virus (PDF, janeiro 2026)
- https://ncdc.mohfw.gov.in/wp-content/uploads/2026/01/CD-Alert-NIPAH-Virus.pdf
- (Alerta oficial indiano sobre o vírus, incluindo surtos sazonais em Bangladesh e Índia.)
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC) – Emerging Infectious Diseases journal (artigo recente)
- https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/32/1/25-0979_article
- (Artigo sobre henipavírus, incluindo Nipah e Hendra, com foco em riscos à saúde pública.)
- UK Government – Outbreaks under monitoring: week 3 (janeiro 2026)
- https://www.gov.uk/government/publications/outbreaks-under-monitoring-in-2026/outbreaks-under-monitoring-week-3-week-ending-18-january-2026
- (Relato oficial confirmando 2 casos em Kolkata em 13 de janeiro de 2026, com detalhes sobre profissionais de saúde.)
- Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI) – New vaccine set for human trials in Nipah outbreak hotspot
- https://cepi.net/new-vaccine-set-human-trials-nipah-outbreak-hotspot
- (Atualização sobre ensaios de fase II da vacina PHV02 planejados para início em 2026 em Bangladesh.)
- CEPI – Closing in on protection against deadly Nipah virus
- https://cepi.net/innovations-for-impact/closing-deadly-virus-nipah-preparedness-chain
- (Detalhes sobre avanços em vacinas ChAdOx1 e anticorpos monoclonais, com trials em 2026.)
- CEPI – Nipah program overview
- https://cepi.net/nipah
- (Resumo do portfólio de pesquisa da CEPI, incluindo investimentos em vacinas e contramedidas.)
- Global Times – India’s Nipah virus outbreak leaves five infected and nearly 100 quarantined (janeiro 2026)
- https://www.globaltimes.cn/page/202601/1354171.shtml
- (Cobertura do surto em West Bengal com 5 casos confirmados e quarentena.)
- The Washington Post – What to know about the deadly Nipah virus outbreak in India (janeiro 2026)
- https://www.washingtonpost.com/world/2026/01/27/nipah-virus-outbreak-india
- (Análise do surto em West Bengal, alertas em aeroportos asiáticos e ausência de cura.)
- People – Officials Report Outbreak of Deadly Nipah Virus, Which Has No Cure (janeiro 2026)
- https://people.com/officials-report-outbreak-of-deadly-nipah-virus-which-has-no-cure-11892039
- (Relato inicial dos casos em enfermeiras perto de Kolkata, com contexto zoonótico.)
- USA Today – Nipah virus outbreak, which has no cure, reported in India (janeiro 2026)
- https://www.usatoday.com/story/life/health-wellness/2026/01/26/nipah-virus-outbreak-no-cure/88363057007
- (Notícia sobre os dois casos iniciais confirmados e medidas de contenção.)
- Nature Health – Research and development priorities for Nipah virus outbreak preparedness (2026)
- https://www.nature.com/articles/s44360-025-00014-9
- (Artigo científico sobre prioridades de P&D, incluindo modelos animais e ensaios clínicos.)